Planejar uma política de segurança alimentar e nutricional (SAN) requer pensar toda a cadeia que leva da produção até o consumo. Uma maneira de torná-la mais eficaz é reduzir o tempo e os custos de transporte dos alimentos das unidades produtoras até as unidades distribuidoras. Surge, então, o problema de alocação de recursos. Onde deveria se localizar uma unidade de distribuição que minimizasse as distâncias entre os locais em que se produzem os alimentos e os locais onde eles são distribuídos ao consumidor?
Uma das maneiras de responder esta pergunta é através do cálculo do centro jordaniano: o ponto em uma rede que minimiza as distâncias entre todos os outros pontos. Para achá-lo, construímos um banco de dados com as coordenadas de latitude e longitude de todas as unidades agrícolas de Campos dos Goytacazes, RJ. Incluímos também todas as escolas da cidade, feiras livres e supermercados. As coordenadas das unidades agrícolas foram retiradas do Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos que o IBGE utilizou na realização do censo agropecuário de 2017. Conforme a definição do Instituto, unidades agrícolas são estabelecimentos cuja “…produção [é] dedicada, total ou parcialmente, a atividades agropecuárias, florestais ou aquícolas, subordinada a uma única administração (produtor ou administrador), independentemente de seu tamanho, de sua forma jurídica ou de sua localização, com o objetivo de produção para subsistência ou para venda”. As coordenadas das escolas, conseguimos pelo catálogo nacional que o INEP produz e disponibiliza via internet. Para os supermercados, realizamos uma consulta à API google places, solicitando todos os estabelecimentos do tipo “supermercado” em Campos dos Goytacazes. Os endereços das feiras livres, conhecidas como feiras da roça, foram levantadas pela bolsista da UENF Lohana Chagas.
Ao todo, conseguimos as coordenadas de 7.786 unidades agrícolas, 503 escolas, 20 supermercados e 10 feiras livres, que podem ser vistas no mapa abaixo. É possível notar a predominâncias de unidades agrícolas, que se disseminam por todo o município, enquanto as escolas, feiras e supermercados, em menor número, concentram-se na área mais urbanizada, próximo à sede do município.
Com base nessas informações, podemos ensaiar uma primeira abordagem para responder ao problema de localização pelo cálculo do centro jordaniano. Para isso, vamos classificar as unidades agrícolas como unidades produtas e todos os outros tipos de estabelecimento como unidades distribuidoras. Apesar de a definição do IBGE englobar estabelecimentos rurais que produzem para subsistência, apenas 641 dos 7.786 localizados em Campos dos Goytacazes, afirmaram que é esta a principal finalidade do que produzem. O passo seguinte requer calular as menores distâncias entre todas as unidades produtoras e todas a unidades distribuidoras. Depois deste cálculo, retiramos, de cada unidade produtora, a maior distância até um estabecimento de distribuição. A unidade produtora com a menor destas maiores distâncias pode ser considerada o centro jordaniano. No mapa abaixo, ele aparece com um marcador preto. Em torno dele, plotamos também um buffer de 2km de raio, área na qual poderia vir a ser construído uma central de distribuição de alimentos que minimizasse as distâncias entre as unidades produtoras e as distribuidoras.
A abordagem aqui ensaiada pode ser aprimorada e/ou modificada de inúmeras maneiras. A primeira delas seria coletar mais dados acerca de outras unidades de distribuição. A segundo é considerar como centro jordaniano não a unidade produtora, mas uma unidade distribuidora. A terceira envolve desconsiderar a diferença entre unidades produtoras e distribuidoras, calculando a distância entre todas as unidades, independente do tipo. Nesta hipótese, teríamos um custo computacional mais alto. No exemplo aqui trabalhado, tivemos que calcular as distâncias de 4.149.938 de pares produtores x distribuidores. Se desconsiderássemos a diferença, o número de distâncias a serem calculadas subiria para 34.602.880 - nada impossível de se fazer com um computador não tão potente, caso programado da maneira correta. Em quarto, a estimação ficaria mais precisa se pudéssemos ter acesso aos microdados do IBGE e separar as unidades agrícolas que produzem para substistência daquelas que produzem para venda. No entanto, como tais tipos de informações são sigilosas, é improvável que consigamos acessá-las se recorrer à Sala de Acesso a Dados Restritos, o que requer algum trâmite burocrátio. Em quinto e último, aqui utilizamos a distância de grande círculo, que é o tipo de distância calculada para sistemas de coordenadas não projetados como o SIRGAS 2000, que é o usado em nossa base. Uma estimação mais precisa seria calcular não a distância de grande círculo, mas a distância dos percursos e caminhos disponíveis entre uma unidade e outra. Neste caso, necessitaríamos de mais tempo e recursos econômicos, uma vez que precisaríamos efetuar uma consulta para cada par de unidades na API google directions a qual, cobra $ 8,00 por cada consulta.